Maternidade não é fragilidade

Quando Serena Williams publicou em seu Snapchat, em abril, uma foto de sua barriga com a legenda “20 semanas”, a internet veio abaixo. Primeiro, porque a tenista engravidou no momento mais brilhante de sua longa carreira. Além disso, logo chegou-se à conclusão de que ela já estava grávida no momento em que venceu o Grand Slam, na Austrália, contra sua irmã, Venus. Nesse dia, Serena conquistou seu vigésimo terceiro título, reforçando mais uma vez a liderança mundial do esporte.

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Serena anunciou sua gravidez via Snapchat

A gravidez de Serena levantou um bocado de reflexões sobre a relação da mulher bem sucedida nos esportes e a maternidade. Muitos saíram em defesa do direito da tenista a engravidar, antecipando e criticando a pressão que ela sofrerá caso volte às quadras sem a mesma condição física que tem hoje. Para atletas, a gravidez é sinônimo de abandonar o jogo, talvez para nunca mais voltar ao mesmo patamar. Serena já deixou seu posicionamento bem claro – como sempre faz quando questionada – em uma bonita postagem para a futura criança, dizendo que comemorava, com ela, o fato de ser campeã mundial e que, talvez, a criança tivesse esse mesmo destino no futuro. Outra atleta que mostrou, de forma muito poderosa, que é possível ser mãe e atleta competitiva foi a judoca americana Jennifer Orey, que foi conhecida no mundo todo por amamentar o filho pequeno ainda no tatame onde conquistou a medalha de prata em uma competição estadual da Califórnia.

A judoca Jennifer Orey amamenta o filho caçula logo após conquistar a medalha de prata (Foto: Reprodução/ Instagram)
A judoca Jennifer Orey amamenta o filho caçula logo após conquistar a medalha de prata (Foto: Reprodução/ Instagram)

Contudo, é também uma boa oportunidade para observar o outro lado da questão: o quanto o corpo da mãe é considerado frágil, passível de proteção e cuidados, durante a gestação.

É curioso pensar sobre como o corpo da mulher é escrutinado em todas as fases da maternidade. Na gestação, a grávida é cercada de conselhos (alguns deles bem intencionados, porém superficiais) sobre como tomar todos os cuidados possíveis para o bebê. Mas no minuto que a mãe deixa de ser receptáculo de uma vida, ela passa a ser novamente uma mulher. Desta vez, seu bem estar deixa de ser o centro de questionamento, mas sim sua aparência física – o corpo da mãe deve voltar “ao normal” em questão de semanas após o parto. Caso contrário, será alvo de comentário e avaliação.

Mas por que a sociedade endossa tanto que a grávida é frágil? Não estamos nos referindo à gravidez de risco, que pede atenção e cuidado para a saúde da mãe e da criança. Por vezes, parecemos nos esquecer que dar vida a uma criança é um poder. O retrato da mãe constantemente exausta e pálida, que busca ser mais “realista” que a visão mágica de que tudo é flores na maternidade, se perpetua e padroniza a ideia de “maternidade sincera”. Mas pouco se fala sobre como a gravidez pode ser empoderadora para a mulher em termos físicos. A ideia de que o corpo de algumas mulheres pode sustentar não apenas uma vida, mas duas; ser responsável por sua formação e desenvolvimento durante meses, alimentar e carregar a criança: tudo isso é muito mais difícil que completar uma maratona. E é um lembrete de que podemos nos adaptar muito mais (e melhor) do que imaginamos.

Serena é o retrato de que a mulher pode e deve, todos os dias, fazer o que quiser do seu corpo. Seja para batalhar até se tornar primeira tenista do mundo ou a ter a coragem e a força, igualmente necessárias, de se tornar mãe.

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