Hijab e esporte: sobre as demandas da presença feminina nas competições

Shiva Amini era uma das jogadoras mais promissoras do time de futsal feminino do Irã. Dedicou os últimos treze anos da sua vida ao esporte e ao sonho de competir internacionalmente. Em 2009, depois de anos representando o time nacional iraniano, tornou-se treinadora de times locais. Isso até a última semana, quando Shiva publicou uma foto em suas redes sociais: estava jogando futebol com alguns amigos, alguns deles homens, e sem usar o hijab, o véu tradicional da vestimenta islâmica feminina. Por ser uma partida informal, que não tinha relação com seu time, Shiva não estava de uniforme; vestia shorts. Mas isso foi o suficiente para que a esportista fosse banida para sempre de qualquer participação no futsal iraniano pela Federação de Futsal Iraniana.

Ao movimento feminista Stealthy Freedom, Shiva falou sobre a reação dos oficiais da Federação: “Eles me disseram: ‘Quando você é um membro de um time oficial, você não tem direito de jogar sem o véu mesmo em jogos não-oficiais. Vivemos em um país islâmico. Por que você foi jogar com garotos? Você teria sido retirada do time mesmo se estivesse com o véu, se resolver jogar com garotos’”.

O caso ganhou notoriedade no Independent e no New York Times, mas a questão merece ser investigada mais a fundo. Afinal, não é a primeira vez que a obrigatoriedade do hijab causa efeitos profundos no esporte iraniano: em 2012, a seleção de futebol do país foi impedida de jogar, pois a FIFA considerou o véu uma ameaça à segurança do campeonato. Do outro lado da corda, a organização iraniana não abriu mão da vestimenta para que o time pudesse entrar em campo.

O assunto é delicado. Se por um lado, as jogadoras batem o pé pelo direito de não usar o hijab nas partidas, por outro, muitas delas se sentem empoderadas ao jogar com a vestimenta e não devem sofrer por conta desta crença. Nos Estados Unidos, o uso do hijab em campo é proibido, fazendo com que diversas atletas desistam dos esportes. [ATUALIZADO:] Na última quinta-feira, a FIBA, voltada para a prática do basquete, autorizou o uso do hijab nas competições esportivas, mostrando a relevância deste debate tão essencial para a pluralidade dos esportes mundiais.

Na mesa “Beyond the Burkini Ban: Sport & Social Justice”, que rolou no SXSW deste ano, a jogadora de basquete Bilqis Abdul-Qaadir dividiu sua história: “minha espiritualidade é uma parte muito importante de mim e ajuda a definir quem eu sou. Quando baniram o hijab, passei a me questionar, a duvidar de quem eu realmente era”.

Proibida de usar hijab em quadra, Bilqis Abdul-Qaadir joga com uma toca na cabeça

O assunto é tão relevante – e voltou a ser pauta nas Olimpíadas de 2016, no Rio – que tocou em marcas. Em março deste ano, a Nike anunciou que lançará uma coleção de véus voltados para esportistas de alta performance. Muitos enxergaram a notícia como um grande passo para o reconhecimento da presença das jogadoras islâmicas em campo. Mas como a própria Qaadir disse no SXSW, “Vejo a Nike lançando o novo hijab e as pessoas celebrando. No meu ponto de vista, estão apenas capitalizando em cima de uma discussão maior. Queria que a Nike me ajudasse a quebrar as regras e não a vender hijabs”.

A discussão é tão maior – e complexa – que divide as próprias jogadoras. Por um lado, é preciso legitimar o direito das esportistas de usar o hijab em competições ocidentais, se assim desejarem, como Qaadir; por outro, há também a questão urgente, da parte da Federação iraniana, de desobrigar as jogadoras que não seguem o islamismo a vestirem o hijab nas competições, como Shiva. Para a jogadora de basquete, o fato de uma marca assumir a produção da vestimenta não é transformador por si só. “Estes o produtos existem há 2 mil anos, feitos em pequena escala por produtores locais. Não precisamos que a Nike faça hijabs, Precisamos ter o direito de usá-los em jogo”.

Mais do que tudo, precisamos levantar essas questões, compreender os diversos lados delas e reforçar quão urgentes elas são. Sob diversas perspectivas, mulheres estão sempre abrindo mão de suas crenças, direitos, sexualidade e até mesmo da maternidade para permanecer nos esportes. Nossos obstáculos não estão apenas na pista, mas nos fundamentos da presença feminina nos esportes e nas implicações e conversas urgentes sobre temas que refletem diretamente na técnica e na vida das esportistas. Seguimos na luta, mas sem esquecer: até quando nossas demandas serão ignoradas?

Foto: Sycamore.com

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