Quando correr é um ato de rebeldia

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Kathrine Switzer: quebrando recordes e tabus (Mary Schwalm / Associated Press)

Quando falamos que mulheres, ao fazer esportes, estão exercendo um ato político, não é um exagero. Conquistas e competições não são apenas um lembrete de que podemos usar nossos corpos da forma que quisermos, quando e onde quisermos; são também, muitas vezes, um símbolo de uma luta ainda maior. É o caso da corredora Kathrine Switzer que, aos 70 anos, completou na última segunda-feira a Boston Run, uma das maratonas mais tradicionais dos Estados Unidos. Mas a história de Kathrine com a corrida é longa – e inspiradora.

18switzer-web-articleLargeKathrine quase foi arrancada da pista pelo simples ato rebelde de competir.
Paul Connell / The Boston Globe via Getty Images

A ousadia de Kathrine foi ser a primeira mulher a correr na Boston Run em 1967. Até então, os competidores eram exclusivamente homens – afinal, “mulheres eram consideradas frágeis demais para correr”. Para participar, Kathrine se inscreveu usando as iniciais – K.V. Switzer -, o que não levantou perguntas. Foi acompanhada do namorado e do treinador, que estavam orgulhosos em vê-la correr. Mas isso, sem dúvida, não foi a reação de todos. Embora alguns dos competidores parecessem orgulhosos ao vê-la,  Kathrine confessou em um vídeo que jornalistas a abordaram de forma agressiva durante a corrida, perguntando “o que ela queria provar” e se era uma sufragista; isso sem falar na icônica foto que mudaria a vida da corredora para sempre.

Durante a corrida, Kathrine foi abordada por um dos diretores da Boston Run. Ele exigia que ela saísse da “corrida dele” imediatamente, tentou rasgar seu número de inscrição e chegou a empurrá-la com força para fora da pista. O namorado interveio, a confusão só aumentou e as câmeras registraram tudo. Foi nesse momento que K.V. entendeu as dimensões – e a importância – do seu “ato de rebeldia”. “Eu disse ao meu treinador que  terminaria a corrida usando os joelhos e as mãos se fosse preciso”, contou ela no vídeo. “Se eu não terminasse, diriam para sempre que mulheres não podem e não merecem correr”. K.V. terminou a corrida em quatro horas e vinte minutos, sentindo-se vitoriosa. Naquele dia, havia realizado uma grande conquista, não apenas pessoal, mas também para as mulheres nos esportes. Mas mudanças de fato só viriam em 1972, quando a participação feminina foi liberada oficialmente na Boston Run. Em 1984,  corredoras puderam competir nas Olimpíadas.

Se hoje, encaramos com naturalidade a presença feminina em maratonas, é por conta da coragem de  mulheres como K.V., que ousaram quebrar as regras. E seguem quebrando: Kathrine completou a prova de 2017 com pouca diferença de tempo: apenas 24 minutos a mais do que sua performance de cinquenta anos atrás. Quebra tudo, K.V.!

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