Pelo direito de torcer (e ter torcida)

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Torcida do Fenerbahce em partida especial para mulheres e crianças em 2014. Foto: AP

Decepcionante, mas não surpreendente. Os cartazes da  torcida do time francês Olympique de Lyon, exibidos durante uma partida do time masculino contra o LOSC Lille, viraram notícia no início do ano por apontar o estádio como um lugar para os homens e, para fora dali, na cozinha, o lugar das mulheres. Como o público de um time que hoje se sustenta, em suma, do sucesso da equipe feminina, chegou a esta conclusão?

Reprodução / Canal +
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Como comprovamos em nossa pesquisa, o machismo ainda dificulta a relação das mulheres com os esportes e um mundo dominado pelos homens como o do futebol não seria uma exceção à regra. Enquanto eles não precisam se preocupar em ter seu contato com a modalidade ou sua presença nos estádios – seja na arquibancada ou no campo – questionadas, as mulheres ainda precisam provar o amor pela prática e lutar por respeito que não lhes é dado nestes mesmos espaços.

Claro que a resistência feminina na modalidade fala mais alto que gritos machistas. O próprio time do Olympique de Lyon é um exemplo disso. Se as jogadoras obedecessem a torcida e ficassem em casa, na cozinha, o clube agora não teria o título de Melhor Time Feminino do Mundo de 2016 pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS), concebido para uma equipe tricampeã da Champions League, que reúne os melhores times da Europa. O time masculino, por sua vez, nunca chegou a se classificar para a competição.

17155852_1666503320031702_1761173467798549374_nReprodução Facebook / Camisa 33

Este papo machista da torcida do Lyon não convence suas jogadoras e também não convenceria a torcida do clube turco Fenerbahce, que em 2014, que realizou uma venda especial de ingressos somente para torcedoras, resultando na casa do time, a Arena Şükrü Saraçoğlu, lotada: mais de 40 mil mulheres compareceram e deram show nas arquibancadas.

No Brasil, este feito poderia se repetir, já que, só na maior torcida do Brasil, a do Flamengo (RJ), 48,4% são mulheres, de acordo com a pesquisa da Pluri Consultoria, realizada em 2012. Mas, na prática, as presença das mulheres e outros grupos minorizados nos estádios está longe de ser tão igualitária quanto aos números.  

Como consequência, surgem as torcidas femininas, criadas numa busca por espaços seguros dentro de um ambiente hostil, para que as torcedoras possam curtir o esporte longe de assédio, além de declarar que não estão ali para ser vistas como “musas”, mas sim pessoas tão apaixonadas por seus times quanto os colegas do gênero masculino.

No início do ano, o Coletivo INTERfeminista (torcedoras do Internacional do Rio Grande do Sul), o Grupa Cam (torcedoras do Atlético de Minas Gerais), a Resistência Azul Popular (torcida mista do Cruzeiro de Minas Gerais) e a Setor Alvinegro (torcida mista do Ceará, time de Fortaleza, comandada por uma mulher) se uniram ao coletivo Dibradoras para a campanha #EstadioSemAssedio. E a Camisa 33, torcida mista do Clube Remo (de Belém do Pará), se uniu a discussão criando uma cartilha, a fim de educar sobre a questão.

16665560_1632629693419065_6376210694929484585_oReprodução Facebook / Camisa 33

Claro que a mudança parte e é liderada pelas mulheres, mas é interessante ver como os times têm percebido a importância da presença delas, além de outro grupos minorizados socialmente, como pagantes nos estádios.

O Flamengo, ciente da proporção de mulheres que preferem torcer longe do time, lançou, no último dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, uma campanha para convida-las aos estádios, reunindo atletas, jornalistas esportivas e atrizes, como Carolina Dieckmann, para passar a mensagem de que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive no estádio. No mesmo dia, o Cruzeiro entrou em campo com estatísticas de desigualdade e violência de gênero estampadas em suas camisas.

Já Rio Claro (de São Paulo), por exemplo, proibiu os gritos de “bicha” dentro de seu estádio, em um posicionamento contra homofobia. 

Esperamos que ações afirmativas como essas possam ser constantes para, finalmente, caminharmos para uma mudança nas arquibancadas. Mas, como defende a secretária-geral da FIFA (Federação Internacional de Futebol) Fatma Samoura, a primeira mulher a ocupar o cargo desde a fundação da entidade em 1904, é preciso ir além da conscientização de uma maioria de homens ou abrir caminhos que já deveriam ser das mulheres como espectadoras. É preciso falar diretamente com elas. Chamá-las, também, para jogar.  

Como fez a Seleção Feminina de Futebol da Suécia, atual vice campeã olímpica, numa parceria com a marca de produtos esportivos Adidas, que estampou frases como “Eu acredito que as mulheres podem fazer qualquer coisa que decidam fazer” nas camisetas das jogadoras, a fim de celebrar o sucesso do time neste Dia Internacional da Mulher com mensagens positivas e de incentivo.

Reprodução Facebook / Svenska Fotbollslandslagen
Reprodução Facebook / Svenska Fotbollslandslagen

Outro grande passo para normalizar a prática feminina para o público e valorizar financeiramente para clubes e patrocinadores foi dado pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), ao mudar as regras da Copa Libertadores, um dos principais torneios na América do Sul, especialmente para os times brasileiros. Agora os clubes são obrigados a terem times femininos inscritos em campeonatos nacionais como um dos requisitos para que os times masculinos possam competir pela taça do campeonato.

Esta medida pode finalmente mudar o cenário de contratações em nosso país, onde, atualmente, de onze jogadoras em campo, somente quatro têm chances de renovar o contrário para um próxima temporada, segundo o Pesquisão de Futebol Feminino da UOL Esportes. Claro que é incrível ver jogadoras brasileiras conquistando lugares ao redor do mundo, mas a motivação para que elas saiam do país está longe de ser a mesma que para os homens.

Lugar de mulher é no Brasileirão

Enquanto torcemos para um futebol igualitário no futuro, continuamos nos inspiramos nas mulheres que resistem para jogar muita bola no presente. E o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, que começou no último fim de semana, está cheio delas.

Só na primeira rodada, já rolaram duas goleadas, do Corinthians (SP) em cima do São Francisco (BA) por 4 x 0 e do Rio Preto (SP) em cima da Ferroviária (SP) por 3 x 0). E também um empate acirrado entre São José e Ponte Preta, ambos de SP, 1 x 1. Sem contar na vitória no sufoco do Grêmio (RS) em cima do Vitória (PE), com um único gol marcado nos acréscimos do segundo tempo.

Já deu para sentir que o que vem por aí ao longo do campeonato é só jogão, não é mesmo? Esta é uma ótima oportunidade para a técnica da Seleção Brasileira, Emily Lima, observar novos talentos. Mas é importante ressaltar que, com a garantia de que haverão mais times femininos ativos nos próximos anos, espectadores e mídia também vão precisar ficar de olho para a evolução do futebol das mulheres, para além das Olimpíadas e campeonatos pontuais, agora o foco é no futuro dessas jogadoras na modalidade. E nós estaremos na torcida. 

Para acompanhar a próxima rodada e mais sobre o Brasileirão, acesse o site da CBF.

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