As atletas “rápidas demais” para serem consideradas mulheres

Quando a atleta sul-africana Caster Semenya, então com 18 anos, venceu a prova de atletismo de 800 metros rasos com uma vantagem maior que dois segundos em 2009, teve de enfrentar uma enxurrada de críticas e desconfianças sobre seu gênero. Pierre Weiss, secretário-geral da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês), disse que ela não era “100% mulher”. Uma competidora a chamou de homem. Ela foi barrada das competições, interrogada e submetida a exames de sexo. Dois anos mais tarde, a IAAF lançou uma política restringindo os níveis de testosterona permitido em mulheres para até 10 nanomolares por litro, considerado pouco para homens, mas uma condição que muitas mulheres têm, a chamada hiperandrogenismo.

Caster Semenya comemora ouro olímpico, conquistado após vencer prova de 800 metros na Rio 2016 | Imagem: AP
Caster Semenya comemora ouro olímpico, conquistado após vencer prova de 800 metros na Rio 2016 | Imagem: AP

Caso esse limite fosse superado, as atletas teriam que passar por alguns tratamentos invasivos e potencialmente arriscados, como tomar drogas supressoras de hormônios e se submeter a cirurgia para retirar glândulas que produzem testosterona. Semenya decidiu controlar sua ambição e tentou se adequar às regras, seguindo na lanterna das grandes competições por um tempo, até outra atleta se rebelar. Dutee Chand, velocista indiana campeã dos 100 metros rasos na categoria de competidores até 18 anos de idade, foi impedida de competir contra mulheres por ter a mesma condição de Semenya (hiperandrogenismo).

Chand foi levada a um hospital privado em Bangalore e submetida a exames de sangue, análise de cromossomos e um exame ginecológico que achou terrivelmente invasivo – o protocolo da IAAF exige medição do clitóris, vagina e lábios, bem como tamanho dos seios e quantidade de pêlos pubianos. A ideia é identificar se a pessoa é intersexual, uma definição médica considerada problemática por muitos especialistas em gênero que é usada para denominar pessoas que não se encaixam na definição genética que hegemonicamente diferencia os corpos de homens e de mulheres.

Diante do resultado que a classificava como intersexual, a Federação de Atletismo da Índia disse que só permitiria a participação de Chand nas competições caso ela diminuísse o nível de testosterona em seu corpo seguindo algumas das técnicas citadas acima. Ela negou e recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte, questionando porque ela deveria ser obrigada a passar por uma cirurgia se não estava doente.

Dutee Chand para New York Times | Foto: Graham Crouch
Dutee Chand para New York Times | Foto: Graham Crouch

Diante da inexistência de provas científicas de que atletas com hiperandrogenismo se beneficiam tanto da condição a ponto de serem banidas da competição, a corte decidiu que era inapropriado submeter os atletas a esses tipos de exames e tratamentos. Outros fatores como nutrição, acesso a treinadores e infraestrutura adequados além de variações genéticas e biológicas também influenciam, concluiu a corte. Consequentemente, a política de teste de testosterona nas provas de atletismo foi suspensa por dois anos – e é aí que nos encontramos hoje. Em breve, o comitê deve decidir se mantém os testes ou não, e por isso a discussão sobre o tema é urgente. Para Sonja Erikainen, uma doutoranda finlandesa que estuda as regulações de gênero da IAAF e do Comitê Olímpico na Universidade de Leeds (Reino Unido), esse tipo de teste põe em teste o direito de atletas mulheres definirem o seu gênero. E isso tem tudo a ver com a maneira binária e limitada como mulheres e homens são entendidos por boa parte da sociedade.

Para começar, muitos veículos chamam Semenya e Chand erroneamente de “atletas trans” ou “intersexuais”. “Nenhum desses termos é completamente apropriado, já que trans se refere a pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele atribuído a elas no nascimento. Ambas foram designadas mulheres no nascimento e ambas se identificam como mulheres. O termo intersexo, por outro lado, é problemático porque sugere que elas estão ‘no meio termo’ entre os sexos feminino e masculino, mas ambas deixaram muito claro que se consideram mulheres”, explica Sonja. Em 2006, a Sociedade Europeia de Endocrinologia Pediátrica (ESPE, na sigla em inglês) divulgou uma declaração sobre a terminologia correta a respeito de crianças “intersexuais” – a terminologia foi substituída por “pessoas com Distúrbios de Desenvolvimento Sexual” (DSD, na sigla em inglês). A ESPE considerou que termos como intersexual eram interpretados de maneira pejorativa, confundia pessoas diagnosticadas dessa maneira e erroneamente classificavam indivíduos como um meio termo entre homem e mulher quando muitas vezes elas se identificavam claramente com um dos gêneros. “Enquanto algumas pessoas preferem se identificar como intersexuais em vez de dizer que têm DSD, tanto Semeya quanto Chand se identificam claramente como do sexo feminino. É por isso que o termo mais apropriado para se referir a elas é mulher. Em outras palavras, Semenya e Chand são mulheres com níveis altos de testosterona”, diz Sonja.

110 anos de sexismo

O sexismo não é novidade no Comitê Olímpico. A começar pela criação dos Jogos Olímpicos pelo historiador francês Pierre de Fredy, mais conhecido como Barão de Coubertin. Em 1894, ele propôs a realização de uma competição esportiva internacional à semelhança de como eram organizados os jogos na Grécia antiga – motivo pelo qual a primeira edição dos jogos aconteceu em Atenas em 1896. Apesar de as mulheres competirem desde o início dos jogos – em um número desproporcionalmente menor do que os homens e banidas de boa parte das categorias, inclusive do próprio Comitê Olímpico até 1980 – para o Barão de Coubertin a inclusão de mulheres seria “impraticável, desinteressante, nada estética e incorreta”. Mas não foram essas as palavras que imortalizaram de Coubertin como o “pai dos jogos”, e sim o mote “o importante não é ganhar, mas competir”.

O sexismo do Comitê Olímpico criado por de Coubertin, no entanto, parece ter sido eternalizado juntamente com o espírito dos jogos. “Historicamente, atletas registradas para competir na categoria feminina precisam passar por testes científicos ou médicos para provar que eram mulheres. Isso era considerado necessário devido à crença enraizada de que os homens têm uma vantagem atlética sobre mulheres, o que torna injusta a competição de homens contra mulheres. Essa é a lógica para divisão de categorias de gênero nos esportes e órgãos de regulação esportiva consideram isso necessário para garantir que a competição entre mulheres seja justa”, explica Sonja. As primeiras regulações sobre testes de gênero datam da década de 1930, quando atletas com “aparência muito masculina” passavam por exames médicos e precisavam entregar certificados para provar que eram mulheres. Nos idos de 1960, o teste se tornou obrigatório para todas as atletas mulheres competindo e todas elas precisavam passar pelo que foi apelidado de “naked parade” (desfile nu, em tradução livre), no qual mulheres precisam tirar a roupa diante de um comitê de médicos que decidiam se elas eram “femininas o bastante para competir”.

Considerado humilhante para as mulheres, o desfile foi substituído por exames de cromossomos, com base na ideia de que quem tem cromossomos XX são mulheres e cromossomos XY pertencem aos homens, o que não é necessariamente verdade porque algumas mulheres têm a Síndrome de Insensibilidade Andrógena, o que significa que elas também têm cromossomos XY. Muitas mulheres foram excluídas dos esportes por causa da ideia de que cromossomos determinam o gênero de alguém. Devido à injustiça desses métodos, o IAAF e o Comitê Olímpico abandonaram essas práticas em 1991 e 1999, respectivamente. No entanto, ambos reservaram a si o direito de testar o sexo das atletas caso “alguma dúvida sobre seu sexo” surgisse. É sob essa suspeita que atletas como Semenya e Chand são submetidas a testes até hoje.

Para Sonja, assim como os outros métodos foram comprovados como injustos e humilhantes na história das Olimpíadas, está na hora de reconhecer a injustiça da situação atual. “Eu espero que IAAF e Comitê Olímpico aprendam com seus erros passados e anulem todos os testes de sexo no esporte. Essas políticas não são apenas discriminatórias, mas seu objetivo base é impor um limite que não pode ser imposto, uma linha que separa engenhosamente corpos masculinos e femininos. Sexo é algo bagunçado e qualquer tentativa de torná-lo organizado está predisposta a fracassar”, afirma.

Imagem: Fabrice COFFRINI / AFP
Caster Semenya corre na Rio 2016, competição em que levou ouro olímpico na prova de 800 metros. | Imagem: Fabrice COFFRINI / AFP

“Masculinas demais”

Além de tentar impor limites de gênero, há uma declaração implícita nesse tipo de regulação que é difícil de engolir: a ideia de que homens têm uma vantagem sobre as mulheres no esporte. “A categorização no esporte é baseada na ideia de que homens são atletas superiores às mulheres. O teste de sexo foi usado para garantir a categorização de sexo no esporte e o método para isso foi dividir atletas nas categorias feminina e masculina com base em critérios como cromossomos ou hormônios”, diz Sonja. Segundo ela, há dois grandes problemas com isso. O primeiro é que sexo é algo complexo que não pode ser identificado por critérios biológicos, considerando, por exemplo, que algumas mulheres tem tanta testosterona quanto homens. Em segundo lugar, ao escolher critérios para determinar que corpo é feminino ou não, regulamentos desse tipo colocam em questão o direito de uma mulher de definir seu gênero – e, como a própria história do Comitê Olímpico aponta, sempre haverá alguém que não se encaixa nos padrões estabelecidos. “O que essas regulamentações realmente fazem é policiar vantagem atlética como uma característica masculina. Quando mulheres incorporam essa vantagem, elas são consideradas ‘masculinas demais’ com base na crença implícita de que mulheres são atletas inferiores aos homens”, afirma a acadêmica.

Não por acaso, tanto Semenya quanto Chand nasceram em países do chamado “sul global”, com muito menos estrutura para treinar atletas se comparados a Estados Unidos e Reino Unido, por exemplo. Segundo o regulamento, para continuar na competição, as atletas com hiperandrogenismo precisam passar por um “tratamento” para diminuir seus níveis de testosterona. Só que, por estarem em países com menos recursos, essas atletas têm menos opções de fontes de financiamento, o que aumenta a pressão para se submeter a procedimentos desnecessários em termos de saúde. Recentemente, quatro atletas com hiperandrogenismo de países em desenvolvimento foram pressionadas a passar por uma cirurgia de “clitoridectomia parcial” (retirada parcial do clitóris) que nada tem a ver com a competição e prejudica a sensibilidade e o funcionamento sexual das mulheres. Além disso, outros tipos de tratamento, como por exemplo o hormonal, não é muito acessível em termos de custos e de alcance, o que torna esse acesso muito mais difícil para atletas com menos recursos financeiros e/ou moram em zonas rurais.

Como podemos ver, as opressões de gênero e colonialismo estão todas conectadas no caso das regulamentações das Olimpíadas. A forma como as regras são dispostas não dependem puramente da ciência, como pode parecer para muitos admiradores dos esportes, mas de conceitos retrógrados de gênero e de diferenças entre homens e mulheres, conceitos que por tradição colocam a mulher como inferior ao homem. Se o Comitê Olímpico leva a justiça a sério, terão de se debruçar sobre as desigualdades entre países e o sexismo para tomar uma decisão justa de verdade para todos.

Destaque: Fabrice COFFRINI / AFP.

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