Amanda Nunes, leoa do octógono

A estratégia de luta de Amanda Nunes contra a americana Miesha Tate foi impecável: começou cheia de fôlego, implementando uma sequência pesada de golpes na trocação, partindo em seguida para um mata-leão fulminante, que foi demais para a adversária. E foi assim que, no último sábado, a baiana de 28 anos fez jus ao seu apelido de “leoa”. Foi assim que ela fez história no UFC.

Ela desafiava Tate pelo cinturão dos pesos-galo, se tornando, com a vitória, a primeira atleta feminina brasileira campeã do UFC. Graças à Amanda, o Brasil voltou a ter um campeão linear na principal organização do MMA. Mas a vitória dela significa muito mais que isso. Ela também se tornou a primeira atleta assumidamente homossexual a ser dona de um cinturão.

Amanda - EsporteInspiracao22

Desde quando começou a lutar, aos 16 anos de idade, a baiana natural de Pojuca se acostumou a ser a única mulher na academia de jiu-jitsu. Ela, que quase foi jogadora de futebol (outra modalidade onde o machismo é a regra), se mudou pra Salvador pra se dedicar integralmente aos treinos de jiu-jitsu. Se destacava tanto no time do mestre Edson Carvalho que os meninos lhe deram o apelido de “leoa”: era muito casca grossa nos treinos. O Jiu-Jitsu lhe deu muitas vitórias e chegava a faltar prateleira para os troféus que ganhou, mas também continuava faltando dinheiro na carteira no fim do mês. Decidiu migrar para o MMA por achar que seria um caminho mais fácil de conseguir a estabilidade financeira.

Em 2010, já praticante de artes marciais mistas, ela se mudou para os Estados Unidos para treinar na filial americana da academia que frequentava na Bahia. Entrou para o Strikeforce e começou a se destacar. Em 2013, recebeu um telefonema do UFC, que a tornaria pioneira: se tornou a primeira brasileira a assinar contrato com a companhia, assim como a primeira a registrar uma vitória no octógono da elite do MMA.

Já dona do cinturão dos pesos-galo, Amanda falou na coletiva de imprensa pós UFC 200 sobre ser a primeira campeã gay: “Acho incrível. Sou feliz comigo mesma, isso que importa.” Ainda afirmou ter certeza de que a namorada, a também lutadora Nina Ansaroff, vai ser a próxima campeã dos pesos-palha e a elogiou como parceira de treinos e de vida, se declarando ao fim “Eu a amo”. Fofa!

Nesses tempos em que a intolerância contra os LGBT está em pauta, a Amanda é um exemplo de bravura e perseverança para todas as meninas brasileiras que lutam jiu-jitsu e MMA e também para toda a comunidade LGBT.

Amanda Nunes honrou a máxima “lugar de mulher é onde ela quiser”, provando que octógono é lugar de mulher sim! Nos dá um orgulho danado poder dizer, em alto e bom som, para todos os homens que gostam de MMA: no momento, o único cinturão brasileiro no UFC foi fruto das garras de uma mulher lésbica! Ainda acham que nós somos o sexo frágil?

  • Anna Luiza Terra, 24 anos, natural do Rio de Janeiro. Flamenguista, é antropóloga, poeta e rapper.

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