Janeth Arcain: “Precisamos mostrar para as mulheres do que elas são capazes”

Sua primeira modalidade foi o vôlei. Saiu das redes e manchetes para as cestas e bandejas. A paixão pelo basquete se fortaleceu e nunca deixou de crescer. Fez parte do tripé que sustentou por muitos anos a Seleção Feminina de Basquetebol ao lado de Hortência e Paula. Batalhou muito para construir sua carreira e se dedicou sempre, ao máximo, para alcançar seus objetivos. Num bate-papo com a Olga Esporte Clube, Janeth Arcain falou sobre as dificuldades de patrocínio das equipes femininas, a importância da inserção de atividade física dentro das escolas e na vida das crianças e também sobre como a valorização das modalidades masculinas ainda é muito maior do que a praticada por mulheres. Toda essa experiência foi compartilhada também num dia muito especial, onde a OEC reuniu cerca de 30 mulheres que tiveram a chance não apenas de conhecer Janeth, mas também de aprender alguns fundamentos do basquete e viver um dia em quadra com uma das maiores e mais importantes atletas brasileiras dos últimos anos.

1. Atualmente as crianças não brincam tanto nas ruas quanto antigamente. Você acha que isso pode influenciar o envolvimento com atividades físicas no futuro? Como foi sua infância a partir dessa perspectiva?

Até os meus 5 anos de idade eu morei com meus avós e meus tios em Carapicuíba, só depois fui para o Bom Retiro com a minha mãe. Então foi lá que eu passei os meus primeiros anos de vida e tinha liberdade para brincar de tudo. Sempre ficava na rua e jogava futebol na rua com as meninas, brincava de pega-pega, empinava papagaio, subia em árvores, era uma moleca. A minha infância foi bem agitada em termos de atividade física, mesmo sem saber naquele momento o que isso significava. Quando eu entrei para um treinamento mais focado em uma modalidade específica que eu fui realmente perceber que o desenvolvimento motor que eu tive quando ainda era criança me ajudou muito nos esportes que eu pratiquei.

2. A relação com esporte começou quando?

Ainda na escola, nas aulas de Educação Física. Minha professora dava um pouquinho de tudo e eu gostava de jogar vôlei, handebol e basquete. Apesar de confundir os dois últimos entre as passadas, dribles e passes, eu me divertia muito. Jogava futebol com os meninos também, além de pega-pega e queimada. Mas todas essas atividades eu fazia dentro da escola. Foi lá que tudo começou.

3. E ao contrário do que muitos imaginam sua primeira modalidade não foi o basquete, certo?

Não. Eu comecei com o voleibol. Foi a primeira modalidade que eu joguei federada, aos 13 anos. Mas o que eu queria mesmo era jogar basquete. Então naquele mesmo ano minha professora me levou para Catanduva, no interior de São Paulo, onde eu comecei a jogar basquetebol. Mas foi muito interessante jogar voleibol. Eu jogava bem de certa forma, porque depois de três meses eu já era titular no Corinthians. Foi gostoso porque eu vivenciei outra modalidade. Mas era o basquete que eu queria, que eu achava desafiador. O basquete que tinha entrado realmente no meu coração e que eu queria praticar.

4. Como foi esse início no basquete?

Já existia uma equipe formada quando eu fui para Catanduva. Morava numa República. Faltavam algumas jogadoras, mas tinha cerca de 10 meninas e eu acabei completando a equipe e me saí muito bem porque eu gostava muito de treinar. Eu treinava de manhã e a tarde. Prestava atenção em cada palavra e movimento que o técnico fazia e depois ficava repetindo tudo, sozinha. E no período da noite eu estudava. Meu dia era completo. Com muita atividade. Aos finais de semana eram os jogos. Não tinha descanso. Mas quando tinha eu ia pra quadra treinar mais.

5. Você entrou para o primeiro clube ainda muito nova. Como sua família encarou essa escolha e qual era a proximidade e apoio que eles te davam naquele momento?

A minha relação com minha família teve seus lados bons e ruins. Meu pai no começo não queria que eu jogasse basquete, até mesmo porque era um esporte de contato e ele dizia que era só para meninos. Mas minha mãe, em compensação, me incentivou dizendo que eu deveria sim ir para Catanduva, que ela me levaria e estaria do meu lado sempre. Ela vivenciou esse sonho comigo e foi isso que me impulsionou para que eu continuasse jogando basquete. O começo não foi fácil. Primeiro porque eu venho de uma família muito simples e a gente não tinha condições de se ver sempre. Minha mãe não conseguia ir com frequência para Catanduva, que fica a 500km de São Paulo. Por lá, as condições de treinos não eram as melhores. O ginásio de treinamento ficava a 3 quilômetros de distância e muitas vezes eu não tinha como pegar o ônibus. Eu batalhei. Andei muito. Corri atrás dos meus sonhos. Não foi nada fácil, mas eu faria tudo de novo.

6. Havia uma grande estrutura por trás para subsidiar a equipe?

Não. Normalmente não existem mesmo subsídios para categoria de base. Então quando você inicia o treinamento existe apenas o apoio dos familiares. E quem não tinha esse apoio por perto, arrumava um modo. E o meu modo era esse. Tinha que caminhar para poder treinar. E não era pouca coisa. Mas hoje, analisando toda minha trajetória, para mim foi ótimo. Foi um aprendizado. Uma barreira que eu tinha que ultrapassar todos os dias e mostrar para mim mesma que eu era capaz e que eu poderia realizar meus sonhos. E esses sonhos foram realizados rapidamente, porque com 16 anos eu fui convocada para a Seleção Brasileira Adulta de Basquete. As pessoas falam que eu tive sorte. É claro que o talento, aquele que nasce com a gente, também ajudou. Mas a minha dedicação foi fundamental para que eu pudesse alcançar esses objetivos e metas. A Seleção Brasileira era um sonho. Uma realização. Poder defender as cores da camisa brasileira para mim, particularmente, não tem preço.

7. Existia alguma diferenciação ou preferência com relação a apoios e patrocínios entre as equipes femininas e masculinas dentro dos clubes pelos quais você passou?

Nas categorias de base as diferenças entre as equipes já eram grandes. Um exemplo: na capital de São Paulo – onde eu morava – eu não encontrei equipes femininas de basquetebol para jogar. Mas equipes masculinas tinham muitas. Nos grandes clubes. E continuam tendo. Então a dificuldade já começa aí. Eu tive que ir para o interior, que era onde tinha o basquete feminino, para poder treinar. A quantidade de equipes também era muito diferente. Quando eu comecei, na categoria mirim, nós tínhamos umas 10 equipes femininas jogando na modalidade pelo Campeonato Paulista. Enquanto que no masculino tinham pelo menos 20 equipes. Era sempre o dobro ou mais. Sem contar a quantidade de praticantes. No feminino era muito mais difícil encontrarmos meninas que tivesses interesse em jogar basquete. Até mesmo hoje nós temos que ir às escolas divulgar e falar dos títulos conquistados para que a gente possa motivar essa nova geração de meninas. A mulher quando realmente quer se dedicar, vai atrás, supera barreiras, realiza sonhos e alcança os objetivos e metas. Então é isso que a gente tem que procurar passar para as jovens de hoje.

8. A trajetória como mulher no meio esportivo já é difícil. Como fica a decisão de seguir a carreira no esporte ou apostar numa outra profissão ou num curso de faculdade?

Quando você está numa modalidade de alto rendimento, chega um momento em que essa escolha realmente tem que acontecer. Normalmente com 18 ou 19 anos é uma fase em que há uma pressão dos pais para trabalhar, até porque tem que ajudar em casa de alguma forma. Eu não enfrentei essa dificuldade porque já aos 16 anos fui para a seleção brasileira e tive um bom resultado mesmo sendo de uma família simples com mais dificuldades. E tive o apoio também de outras pessoas que acreditaram nessa minha carreira, mesmo com meus 17/18 anos. E esse apoio é crucial para que a gente ganhe forças para seguir.

9. E como foi o caminho percorrido até a seleção brasileira? Como chegou até lá?

Essa é uma história muito interessante. Eu jogava na equipe de Piracicaba e minha técnica era a Maria Helena, que já na época era técnica da seleção brasileira. Um dia ela chegou para mim e disse: “eu vou te levar para a seleção brasileira. Você vai ser convocada, mas durante o primeiro ano só vai treinar, não vai jogar. Mas eu tenho certeza que depois disso você vai permanecer”. Para mim, o fato de estar na seleção já era algo enorme. E ficava na minha cabeça: “será que serei cortada? Vou continuar aqui? Vou conseguir permanecer?” E pensei comigo mesma: “tenho que buscar minha posição para que eu realmente possa permanecer na seleção brasileira”. Então, nesse primeiro momento, em 1986, eu realmente só treinei. E, aí sim, a partir de 1987 eu passei a fazer parte da seleção brasileira. E só em 2007, 20 anos depois, eu saí de lá.

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10. Jogar com Hortência e Paula, que já tinham mais destaque e reconhecimento, foi um desafio? Como era essa relação?

Eu me senti nas nuvens. Elas eram meus ídolos e naquele momento eu estava ali, junto, no mesmo patamar. Às vezes eu levava umas boladas na cara, porque eu não esperava que elas passariam a bola pra mim. Foi uma quebra de barreira estar ali. Porque mesmo muito nova eu já estava lá com elas, no mesmo nível. E foi a partir daquele momento que a seleção brasileira feminina começou a se sobressair. Nós formamos o tripé Janeth, Paula e Hortência e conquistamos títulos por quase duas gerações.

11. No seu primeiro ano já houve uma importante conquista?

Nós fomos vice-campeãs panamericanas em 1987, em Indianápolis. Perdemos para os Estados Unidos. Na edição sequinte, em Havana, conquistamos o ouro. E recebemos, das mãos de Fidel Castro, as nossas merecidas medalhas. Ganhamos dos EUA e de Cuba, em Cuba. Começava ali a trajetória dessa nova geração do Basquete Feminino. Mas tem aí uma curiosidade. No mesmo ano, 1987, o masculino havia sido campeão, então os holofotes estavam totalmente voltados para eles. O protagonismo não foi nosso. Mas para nós, fazer uma final de panamericano com EUA, já era uma vitória e tanto. E aí vieram vários outros títulos que engrandeceram nossa geração.

12. Qual foi o momento auge que você viveu com no basquete? Aquele que mais te emocionou?

Sem dúvida alguma em 1996. Quando eu fui a cestinha dos Jogos Olímpicos. Foi o momento que mais marcou minha carreira. Logo na sequência Paula e Hortência saíram da seleção e toda a responsabilidade caiu sobre mim. A responsabilidade de manter o mesmo nível de basquetebol sem elas. E conseguimos. Nos Jogos Olímpicos de Sydney fomos medalhas de bronze. E, naquele momento, todo o peso estava depositado em mim, por ser a única daquela geração. Mas foi bom, porque apenas quando essas dificuldades aparecem é que nós temos a chance de mostrar que nós conseguimos superá-las. E eu sempre treinei muito, sempre me dediquei e sempre acreditei no meu potencial.

13. Mas ainda assim, com todos esses títulos como era a realidade no Brasil com relação a apoio ao esporte e patrocínios?

A gente sempre teve muita dificuldade não apenas para conseguirmos apoio e patrocínio, mas também para termos uma quantidade razoável de meninas praticantes da modalidade. A estratégia, então, era ir atrás de empresas privadas (até porque na época não existia o apoio governamental), mas elas conseguiam muito mais retorno e visibilidade em cima da equipe masculina, apesar de a feminina ter muito mais títulos. Mas essa era uma dificuldade sempre presente na nossa realidade. Mesmo assim não desistíamos porque sabíamos que apesar da pouca quantidade de atletas e times femininos, a qualidade era altíssima. Então nos fortalecíamos nessa verdade para seguirmos em frente conquistando todos os títulos que pudéssemos.

14. E aí você foi convidada a integrar a WNBA. A primeira brasileira. Jogou em Houston por 7 anos e foi tetracampeã. Como foi viver isso tudo?

Quando recebi a carta, nem quis saber quanto eu iria ganhar ou deixar de ganhar. Porque era a realização de um sonho jogar um basquetebol profissional no melhor basquetebol do mundo. Eu permaneci por 9 temporadas. Sou a única jogadora estrangeira tetracampeã. E, para mim, foi excelente porque além dos títulos em equipe, fui a jogadora que mais evoluiu na WNBA e fui convidada para o jogos das estrelas, o All Star Games. Para estar lá, fui a mais votada pela imprensa e público. E sendo brasileira. Mas nem tudo foi fácil. Enfrentei uma grande barreira por ser atleta sul-americana, mas soube, dentro de cada momento, lidar com tudo isso e ganhar o respeito deles.

15. E todo esse reconhecimento resultou na sua indicação, em 2014, para o Hall da Fama do Basquetebol Feminino nos EUA…

Exatamente. Em 2014 fui indicada e em 2015 recebi esse prêmio que vem coroar toda minha dedicação ao basquetebol brasileiro mesmo depois de 8 anos que eu parei de jogar. Às vezes as pessoas me perguntam: “Janeth, mas você conseguiu um retorno financeiro com tudo isso?”. Bom, eu consegui um retorno financeiro, mas muito aquém daquele que eu teria se tivesse jogado no basquete masculino e fosse homem. Essa diferença a gente encontra em todos os lugares. Nos Estados Unidos existia essa diferença e aqui no Brasil também existe.

16. Você participou da geração de ouro do basquete feminino. Junto com Paula, Hortência. Com campeonatos que enchiam o ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e atraía multidões. Como você acha que está o cenário hoje do basquete feminino no Brasil?

Eu vejo o cenário do basquete feminino muito aquém daquilo que a gente merece por tudo o que conquistamos e pela história que construímos. Poderia e deveria ser muito melhor, com mais empresas incentivando, com o governo apoiando, seja ele federal, estadual ou municipal. Acho que precisa haver mais incentivo. E tem também a questão de como o esporte é tratado dentro das escolas. Isso influencia muito. E o que infelizmente está acontecendo, o que está afetando diretamente na falta de públicos nos jogos são, sem dúvida alguma, os resultados. O basquetebol feminino está sem conquistar títulos há quase 10 anos e aí isso dificulta o espelho que as crianças precisam ter dos seus ídolos.

17. E o seu Instituto, como nasceu? Com qual propósito?

O Instituto Janeth Arcain surgiu em 2002, com a ideia de poder oferecer a jovens e crianças uma carreira e qualidade de vida por meio do basquetebol, que é a modalidade que eu sempre pratiquei. Eu achei que essa juventude seria merecedora de ter alguém próximo para viver esse sonho. Quando eu vejo uma criança fazendo uma bandeja, um arremesso, e sorrindo, eu me projeto nessa criança. Eu revivo toda a infância que eu tive e que eu faria tudo de novo.

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18. Você trouxe para o Instituto algum aprendizado do tempo que ficou nos EUA?

A organização não governamental de lá é diferente, mas a gestão de lá é muito forte. Então, sim. Eu trouxe um pouco de aprendizados dos Estados Unidos e o Instituto é um sucesso há 14 anos. Já tivemos jogadoras e atletas na seleção brasileira, na seleção paulista, em clubes e também temos pessoas formadas que não foram atletas de alto rendimento, mas tiveram uma formação escolar. E, para mim, isso é uma realização. Dos 700 atletas que atendemos, nem todos serão de alto rendimento, mas a qualidade de vida, o ensinamento, o que passamos para eles eu tenho certeza que eles vão levar para o resto da vida.

19. Como é a procura?

Enorme. Hoje estamos em 5 cidades e eu espero poder aumentar para conseguirmos favorecer mais atletas.

20. Qual é a mensagem que você deixa para as mulheres que ainda não praticam uma atividade física, mas que tem essa vontade?

O meu recado é mais um pedido. Que elas acreditem no potencial, saiam do sedentarismo, aproveitem as oportunidades e locais onde possam praticar atividades físicas e incentivem os filhos a conhecerem modalidades. Nós mulheres temos muita garra e superação. E elas precisam se fortalecer. E eu fico muito feliz em poder ser um canal para fomentar essa mensagem.

 

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