“Meu corpo definido não é um fim. É um meio para o empoderamento”

 

izzy_pan pbMeu papel como atleta de rugby de alto rendimento é desempenhar. Todos os dias, eu cuido do meu instrumento de trabalho, meu corpo, para treinar e jogar no melhor nível possível. Este processo de trabalhar com meu corpo, e para meu corpo, tem sido libertador.

Primeiramente, ao me tornar atleta amadora (no Brasil, poucos esportes são considerados profissionais), tive que olhar mais para o meu corpo, e com um olhar diferente. Não no sentido de passar mais tempo em frente ao espelho, mas porque precisei valorizar e priorizar a utilidade do corpo. Tenho um trabalho a fazer; preciso afinar o agente deste trabalho. Ao passar a me preocupar com as capacidades do meu corpo, em vez das características estéticas, percebo que muitos dos padrões femininos desvalorizam a força do corpo feminino. Definições de beleza ilustram aquela mulher delicada, magra, com braços esguios, unhas compridas. Meu corpo é bem longe disso, mas cada dia, só olho com mais cuidado e admiração por ele.

E tive uma ajuda nessa ressignificação do olhar, pois meu trabalho cotidiano exige isso: tenho metas muito claras e mensuráveis na academia e no campo sobre minha força, potência e resistência. Esse novo olhar torna mais fácil me comprometer nos treinos coletivos e individuais para atingir essas metas. Ao longo do processo, meu corpo reflete meu trabalho; meu corpo passa a ser a lona da minha obra.

A opressão das mulheres pelo patriarcado se manifesta através da falta de reflexão sincera sobre o corpo; falta de uma reflexão através de um olhar sem o filtro machista — enquanto objetificador e hipersexualizador — e sem o espelho distorcido pelos padrões estéticos. Então, a cada dia, tenho a oportunidade de me libertar tomando as rédeas do meu olhar. Todo dia, preciso ser objetiva e preciso enxergá-lo como aquela máquina incrível e complexa que necessita de muita força e potência para desempenhar no rugby.

Dessa forma acabo ressignificando meu corpo, também. Não saio de uniforme no final de semana, pois tenho uma identidade fora a de atleta. Sou uma mulher com músculos e, mesmo que tenha orgulho do meu trabalho refletido no meu corpo, não são poucas vezes que recebo um olhar estranho na rua. Estou consciente de que minha representação de feminilidade subverte as expectativas e padrões da sociedade. Mas, por que não provocar mais pensamento sobre o corpo feminino, em vez de seguir padrões, sem pensar duas vezes? Talvez o problema não seja só como nós mulheres pensamos sobre o corpo, mas o que nós não pensamos sobre o corpo.

Isadora Cerullo
“Sou uma mulher com músculos e tenho orgulho do meu trabalho refletido no meu corpo”

Ao longo deste processo esportivo de avaliação, reavaliação e crítica, percebi que não consigo me comprometer 100% sem conhecer bem meu corpo. Conheço meus pontos fortes e os a melhorar e, sobretudo, minha capacidade e meu potencial. Em cada treino, tenho a oportunidade de desafiar meus limites, de empurrar a barreira da minha zona de conforto e me colocar na fronteira do desconhecido — de capacidade física, resiliência mental, de habilidade e técnica esportiva — e tentar conquistar mais. Eu sinto dor e às vezes até me lesiono, mas na maior parte do tempo acabo me sentindo forte e capaz. Sinto orgulho em não desistir. Me motivo sabendo que estou investindo neste processo e que meu suor e cansaço de agora vão me trazer resultados à frente.

Na esfera segura do treino, comemoramos cada recorde de levantamento de peso, cada corrida mais rápida, mais definição dos músculos. Comemoramos os resultados de todo o trabalho que fazemos com nossos corpos. Mas o corpo definido não é o fim; é um meio, o veículo de um caminho de fortalecimento e empoderamento. Essa força é uma coisa linda, mas não podemos cair na armadilha da objetificação do corpo atlético. Precisamos exigir respeito, sempre, e criticar as intenções por trás destes comentários.

Meu corpo é meu; parece ser mais meu do que nunca. Os processos esportivos têm me conectado mais com meu corpo. Sinto que só eu estou no direito de cuidar dele.

Deixo o convite (e o desafio, por que não?) então para que mais mulheres pensem, de verdade, sobre seu corpo. Que voltem a falar com ele, a se conectar com ele, a ouvir o que ele tem a dizer. E, acima de tudo, que se surpreendam com tudo que ele é capaz de fazer.
Isadora Cerullo é titular da Seleção Brasileira de Rugby Feminino e está lutando por uma vaga para disputar os Jogos Olímpicos Rio 2016. Izzy também é formada pela Columbia University, onde desenvolveu uma tese sobre a evolução dos direitos reprodutivos e sexuais da mulher. Hoje, seu maior desejo é fazer com que rugby e feminismo andem lado a lado.

2 comentários

  1. Na faculdade treinei Rugby. É um esporte apaixonante e que fortalece os laços entre os jogadores, à época, majoritariamente meninos. Hoje estou treinando num time só de meninas e, o sentimento de sororidade é uma coisa que transborda…
    Para mim, Rugby é o melhor esporte para falar de aceitação corporal – porque envolve os mais variados biotipos – e empoderamento feminino:
    Quando você derruba uma garota – ou é derrubada – e a amizade e o respeito se mantém, e os machucados vão e vem, mas a sua força é a mesma, você se lembra que não é feita de vidro…

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