Olga Esporte Clube: Buscar o prazer no esporte é resistir contra o machismo

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No ano passado, o Ministério dos Esportes apresentou os resultados de uma pesquisa sobre a relação dos brasileiros com a atividade física que colocou em números uma realidade assustadora: estamos cada vez mais afastados do movimento. Quase metade da população não pratica nenhuma atividade física, sendo 50,4% das mulheres sedentárias contra 41,2% dos homens.

As crianças vão pelo mesmo caminho. De acordo com um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, esta é a primeira geração que terá uma expectativa de vida até 5 anos menor que a geração de seus pais. Na América Latina, as crianças brasileiras são as mais sedentárias e, se as tendências atuais continuarem, os brasileiros serão 34% menos ativos em 2030 do que eram em 2002. Uma verdadeira epidemia de estagnação física.

Apesar de se tratar de um problema que afeta a todos, as mulheres são impactadas de formas diferentes que os homens. Somos maioria quando o assunto é atividade física, é verdade. Caminhada, musculação, ginástica, alongamento… o mundo do emagrecimento e do bem estar nos pertence. Mas o mundo do desafio e da competição, não. A mesma pesquisa aponta que 35,9% dos homens afirmam praticar esportes coletivos, contra 15,6% das mulheres.

A prática está configurada de um jeito que a muitas mulheres resta uma relação mais solitária e às vezes limitada com o movimento, feito por obrigação, de forma mecânica e sem intenção, com um objetivo funcional que é o corpo ideal que nunca chega.

Foi para debater este problema e entender melhor os motivos deste cenário que a Think Olga, com o apoio da Embaixada Britânica, coloca no mundo a Olga Esporte Clube, uma campanha para o empoderamento feminino no Esporte. Nosso objetivo é transformar a relação das mulheres com o movimento e libertá-las das pressões sociais que as afastam do mundo esportivo. A OEC também luta para abrir novos espaços e possibilidades para a prática feminina nas mais diversas modalidades.

No início de 2016, lançamos uma pesquisa online, para levantar números e dados sobre esta realidade. Mais de 1,5 mil mulheres, de todas as idades, classes sociais e regiões do País, dividiram com a gente suas percepções, pensamentos, conhecimento e angústias.

Em nossa pesquisa, perguntamos qual era a primeira palavra que vinha à cabeça quando pensavam em ESPORTE. As associações foram diversas, mas existem dois grupos de conceitos que predominam.

Os benefícios funcionais: saúde, bem estar, equilíbrio, emagrecimento, um corpo bonito

Ou as próprias modalidades: “quando penso em esporte penso em basquete, em vôlei, em futebol”

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E o que há de errado nestes resultados? À primeira visa, nada. Mas ao refletirmos sobre eles, vemos que, ao valorizarmos apenas os aspectos funcionais, não conseguimos acessar o prazer pelo esporte. O lúdico, o gregário, o desafio, a diversão ficam de fora. Dentro de tudo o que o esporte pode ser, ficamos com uma pequena parte, que reforça a busca pelo corpo perfeito que nunca chega. Mas porque esta relação se estabelece? Por que os homens nunca deixam de brincar e nós logo abandonamos esta opção de lazer?

Nossa pesquisa revelou que se trata de uma construção que começa logo na adolescência. Quando somos crianças, somos naturalmente corporais. Correr, suar, jogar, é tudo parte da brincadeira.

Esporte é diversão (69%), aprendizado (46%) e socialização (35%)

Até os 13 anos, é hora de experimentar diferentes modalidades, desenvolver a corporalidade e a coordenação motora. Entre as modalidades mais citadas estão natação, vôlei, dança, basquete… Esporte coletivos são parte do dia a dia.

Porém, na puberdade essa relação começa a se deteriorar. A chegada da menstruação, as transformações do corpo, o início da vida sexual e o vestibular. Tudo isso se coloca no caminho entre as meninas e a atividade física e o esporte vai aos poucos perdendo seu caráter lúdico (diversão de 69% para 54%). No lugar dele, começa a preocupação com o bem estar (41%) e com a saúde (39%).

E então, aos 18 anos, o esporte perde completamente o caráter lúdico e se transforma em um meio para conquistar om corpo bonito. Os motivos pelos quais as mulheres praticam passam a ser Saúde (64%), Bem estar (62%) e emagrecimento (53%).

E pela maior parte da vida, esta relação só se deteriora. Há uma melhora sutil após os 60 anos, quando temos mais tempo para a prática e a socialização, além de sermos mais maduras e menos pressionadas por padrões estéticos.

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Bem, esta é a história da enorme maioria das mulheres. É a minha história também.

Cresci no interior de São Paulo, moleca, brincando na rua. Canela roxa, joelho ralado, cabelo desgrenhado. Vivia em cima da minha bicicleta, pedalava o dia todo, pedalava descalça. Pude viver minha corporalidade de uma forma completamente livre. Sentia a força que meu corpo era capaz de produzir. Mãe, pai, obrigada por isso!

Mas chegou a adolescência. Que vergonha! Vergonha de tudo. Dos roxos e ralados, dos doloridos projetos de seio, daquele cabelo desgrenhado, do suor, da menstruação, aquela inconveniente, que veio para acabar com a minha festa. Uma vergonha que nunca mais me abandonou.

E ao entrevistar as mulheres, que surpresa. Eu não era a única: nas respostas, a vergonha do próprio corpo, que pode assumir formas diferentes do que é considerado o padrão de beleza, vergonha de não parecer feminina o suficiente… isso atrapalha a nossa relação com o esporte.

“Fico constrangida com meu corpo na hora de me exercitar”, diz 35% das entrevistadas. E vergonha da inabilidade, por se julgarem desengonçadas ou não boas o suficiente. “Tenho vergonha de me exercitar porque não sou habilidosa (36%). Somos cobradas e também nos cobramos demais.

O preconceito também se soma a estas barreiras, já que o mundo dos esportes é dos homens e as mulheres que se atrevem a participar são vistas como masculinizadas. Quase 25% das mulheres afirmam que já foram vítimas de preconceito. Uma em cada quatro. E esse número fica ainda mais alto nas periferias (29%). Uma em cada 3 mulheres de baixa renda são vítimas de preconceito por quererem praticar esportes.

Com todas estas barreiras nos afastando da prática, colocamos o esporte em uma gaveta chamada OBRIGAÇÃO. Fazemos esporte porque temos a obrigação de estarmos magras. Obrigação de estarmos saudáveis. Obrigação de sermos calmas e equilibradas (afinal, somos sempre as loucas na TPM) .

Temos então uma receita de infelicidade: de um lado a mídia e a sociedade cobrando que sejamos sempre belas, saudáveis e equilibradas. De outro lado, nos afastamos de qualquer prazer produzido pelo movimento do nosso corpo. Travamos uma verdadeira batalha com ele e mergulhamos no mundo das dietas e dos treinos repetidos de forma mecânica e sem emoção.

E vamos colecionando desculpas e argumentos. Falta de tempo, de dinheiro, de organização, preguiça…

Vivemos então um ciclo aprisionador, fonte de frustração e de dor. Uma situação que tem como raiz o machismo. Que nos julga, nos expõe, exige um comportamento tido como feminino que é incompatível com o esporte.

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E este ciclo se reforça com a forma que o esporte profissional é tratado. Sem grandes ídolos, temos dificuldades em nos inspirar. A forma com que o mundo olha para o esporte feminino é machista.

Nossas atletas são as musas do esporte. Nossas jornalistas servem para enfeitar a tela ou o gramado. Nossas árbitras são atacadas e “mandadas de volta para o tanque”. Os prêmios, a estrutura, o incentivo, as condições de treino, tudo deixa a desejar. As mulheres recebem uma parcela minúscula dos holofotes que o esporte masculino tem. O esporte profissional, como um produto de entretenimento, é extremamente violento com nossas atletas.

Mas dentro desta dinâmica perversa, existem algumas mulheres extraordinárias que conseguem se destacar. Perguntadas sobre uma referência feminina no esporte, o que tivemos foi:

Serena Williams é campeã. Mas é acima de tudo uma negra vitoriosa em esporte de brancos.

Marta é campeã. Mas é acima de tudo uma mulher vitoriosa em um esporte de homens.

Ronda Rousey é campeã. Mas é acima de tudo uma mulher que expressa agressividade e rompe as barreiras da “feminilidade”.

As esportistas femininas travam tantas batalhas que suas conquistas quase sempre são associadas a outras causas.

E lutam por patrocínio para se manter jogando em uma lógica totalmente desfavorável. Porém não são recompensadas pelo esforço. Sharapova, por exemplo, tem menos títulos que Serena Williams, mas ganha quase o dobro em patrocínio. Uma que está totalmente dentro dos padrões estéticos e a outra que precisa vencer todos os preconceitos.Foto1

A mensagem que nos transmitem o tempo todo é de que nosso valor está em nossa aparência e não em nossas conquistas.

Mas como falamos antes, o prazer é o caminho que nos ajuda a romper com este ciclo. É por meio dele que somos capazes de nos colocarmos em movimento e combater o sexismo presente no esporte.

Redescobrir o prazer foi o que me trouxe de volta para o movimento. Tive a oportunidade e o privilégio de morar na Europa por 2 anos e foi lá, aos 27 anos, que subi em uma bicicleta após 13 anos longe dela. A cidade me convidou a pedalar para me locomover, mas para além da mobilidade, foi o resgate das sensações da infância que me trouxe de volta para o pedal. Da brincadeira, do vento no rosto, da força nas pernas, do vencer a ladeira sem me desequilibrar. Da liberdade ao me mover pelas ruas, que agora eram minhas de novo.

Hoje, de volta a São Paulo, os desafios são outros e muito maiores. O assédio, os buracos, a disputa pelo espaço na rua, o medo da violência e a poluição. Mas o prazer que sinto é maior do que isso. E é ele que me mantém em cima da bicicleta.

E é para trazer de volta esta sensação tão forte que nasceu a Olga Esporte Clube. Para que, por meio do prazer, possamos acessar todos os benefícios e a transformação de que o esporte é capaz.

Nossas ações sempre irão buscar a libertação dos padrões estéticos e de comportamento para uma relação mais harmoniosa com nós mesmas.

Vamos celebrar a força, a potência e a superação femininas para fortalecimento da nossa auto estima e poder de realização. Com autonomia, estaremos empoderadas para lutar contra formas de opressão, não só no esporte, mas nos outros âmbitos de nossas vidas.

Vamos reforçar a sororidade, pela união e o não julgamento, por meio da prática coletiva. Encontros que podem transformar vidas e realidades.

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Mas e na prática? Como funciona a OEC? Para esta primeira fase, no primeiro semestre de 2016,   temos 3 frentes de atuação:

Conteúdo: Jogar luz neste tema com reportagens, entrevistas com especialistas e textos aprofundados. Vamos falar sobre a prática amadora e também levar informação técnica, de produtos e atividades gratuitas. Além disso, vamos destacar as atletas profissionais, disseminar bons exemplos e trazer o reconhecimento merecido. Para isto, criamos a ação #EsporteInspiração. Entendemos que meninas brasileiras precisam de atletas em quem se espelhar. Queremos ampliar o poder transformador da representatividade. Por isso, esta ação será uma coleção de histórias e artes com grandes atletas de ontem e de hoje. que serão lançadas em capítulos, em nossas redes.

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Eventos: Queremos oferecer novas possibilidades, modalidades e encontros para as mulheres, por isso organizaremos clínicas nos mais variados esportes. Uma oportunidade para experimentarmos novas modalidades ou jogarmos ao lado de uma atleta inspiradora. Esse foi o caso da nossa primeira clínica, com a Janeth Arcain, no Sesc Pinheiros, no início de março. Foi lindo e transformador!

12829119_568614763306211_2451096034324184950_o Nossa intenção é promover este tipo de atividade em todo o Brasil, sempre de forma aberta e gratuita. A gente chega lá.

Ferramentas: Como amamos tecnologia e não vivemos sem ela, criamos a MoveOlga para nos ajudar na missão de trazer mais e mais mulheres para o esporte. Esta plataforma irá conectar mulheres de todo o Brasil que desejem praticar atividades físicas em grupo. Elas preenchem um perfil, em que seus dados ficam seguros, e são divulgados apenas quando houver um perfil equivalente. Um ambiente seguro e protegido, em que poderemos nos encontrar, nos conhecer e praticar! Primeiro lançaremos em forma de site e, num futuro próximo, transformaremos em aplicativo.

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Com todas as frentes, esta é a nossa campanha, Nosso Esporte Clube. Gostaríamos de convidar a todas vocês a entrarem para o time. Nossos sonhos são grandes e o futuro vai ser lindo.

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