Vôlei: um sonho minado pela desigualdade social

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Comecei a treinar voleibol quanto tinha nove anos. Estudava em uma escola estadual do Grajaú, distrito mais carente de equipamentos de lazer da cidade de São Paulo. A escola não era reconhecida por ter um excelente ensino, já que de fato não o tinha, mas por ser a escola campeã geral dos jogos estudantis da diretoria de ensino da região quase todos os anos das duas últimas décadas. Eu nunca escolhi treinar voleibol, mas os professores sempre me diziam que eu devia treinar por ser muito alta para minha idade. Então, comecei a treinar porque, apesar de jogar mal, era divertido.

Através dos treinos, conhecia todo mundo da escola e às vezes íamos a jogos de voleibol da Liga e sair do Grajaú já era fascinante para todos nós. Nada era melhor do que chegar à escola após ter vencido o campeonato. Recebíamos os parabéns de toda a escola, íamos a todas a aulas com as medalhas no peito e, de quebra, ganhávamos um refrigerante e um cachorro quente da técnica. Foram as primeiras vezes em que eu senti que era capaz de algo, de vencer em um mundo que por sermos da periferia estamos fadados à perda.

Era muito comum a professor nos levar para seletivas de clubes por São Paulo. Todos os clubes ficavam em áreas nobres às quais nunca tínhamos tido acesso até então. Cada seletiva, ainda que resultasse em uma negativa, nos colocava em um inédito pedaço da cidade. Muitos passavam, mas alguns enfrentavam problemas com a família para treinar e, por terem de trabalhar, seja cuidando dos irmãos mais novos, seja sendo arrimo de família, deixaram de iniciar a carreira no voleibol profissional. Muitos jogadores olímpicos poderiam ter saído dali.

Eu, felizmente, sempre tive uma família muito estruturada e, logo após a morte do meu pai, entrei em um clube em uma área nobre de São Paulo, aos doze anos. Foi aí que eu conheci a desigualdade social, ainda que eu nem soubesse que o nome disso tudo é “desigualdade social”. Lembro que uma vez vi na televisão que estavam abrindo o primeiro hotel seis estrelas do mundo, em Dubai, e comentei aquilo com uma das meninas do time. Ela disse que iria para lá nas férias de verão e eu não acreditei, pensei que fosse mentira de criança. Nas férias seguinte as fotos em uma rede social mostravam que ela estava mesmo lá.

Ainda assim, dos clubes em que treinei esse foi o que mais gostei de treinar. Eu demorava duas horas para ir até o Clube e três horas para voltar (meia hora só de caminhada) e ainda assim me destacava, era um dos pilares do time, formava dupla com outra atacante e era responsável pela maior parte dos pontos de saque. Mesmo sendo fundamental ao time, por ser a militante (que é a bolsista desses clubes), eu sempre entrei pela entrada dos servidores. Não que eu me envergonhasse de entrar pela portinha em vez de entrar pela enorme recepção onde só pude estar quando fomos a Caieiras e marcamos lá como ponto de encontro, mas eu sempre achei meio injusto eu ter de entrar pela entrada mais distante da quadra.

Fiquei deslumbrada quando vi o que era o lado do clube para sócios, já que aos doze anos o lugar mais chique que eu tinha entrado era o Shopping Eldorado. Lembro também que quando chegava ao clube, minhas colegas de time estavam ou na piscina ou praticando outro esporte e eu quis muito, sempre quis muito, treinar tênis com elas. Cheguei a cogitar chegar mais cedo e ficar assistindo até que alguém me convidasse gentilmente pra jogar uma partida. Nunca fiz isso porque no fundo eu sabia que não me convidariam, eu já sabia meu lugar aos doze anos.

Há outros dois episódios que reforçaram muito meu papel num clube que, perdendo sequencialmente por preferir jogadoras sócias a jogadoras boas, defendi como se fosse o meu clube. Certa vez teve o torneio do Clube e eu lembro do constrangimento da minha treinadora ao dizer que eu não poderia participar porque só sócias poderiam jogar. Eu fiquei arrasada. Meu time não se manifestou contrário à minha ausência. Eu só tinha doze anos e aquele era meu time.

O último, foi quando eu estava indo para um jogo muito importante e eu saí com três horas de antecedência. O ônibus estava lotado, pegamos muito trânsito e eu cheguei muito atrasada, quase não consegui me inscrever para o jogo. Não me aqueci e joguei muito, muito mal. E o time, que eu havia defendido todos os outros jogos, me deu as costas. Disse que havia saído três horas antes do jogo mas elas só tinham doze anos e talvez nem soubessem o que é ficar três horas dentro de um ônibus. Acabou o ano, ficamos em último lugar de oito times. Resultado previsível. Éramos um time de cinco.

Por gostar muito da minha treinadora, cogitei continuar no clube, mas os treinos da categoria seguinte eram das 18h às 20h e por mais que eu amasse o voleibol, chegar às 23h em casa tendo treze anos não seria concebível. Saí e fui para outro clube. Consegui entrar em um bem melhor posicionado no ranking que o anterior, mas tive de sair duas semanas depois pois era tão longe de casa que eu não conseguia chegar a tempo nos treinos. Fiquei o restante do ano treinando na escola e me preparando para as seletivas do ano seguinte. A minha evolução era perceptível e servia de inspiração para as outras meninas que entravam no voleibol aos nove anos.

No ano seguinte, já os catorze, estava em um outro clube, treinando com uma categoria acima da minha. Foi por esse clube, projeto de excelência do Governo do Estado, que eu fiz minha primeira viagem interestadual. Os treinos eram pesados e o esquema tático era mais próximo do profissional do que os que eu havia experimentado. Eu tinha quinze minutos para comer entre chegar em casa da escola e pegar o ônibus rumo ao treino, caminho que eu fazia feliz, apesar de ser tão longe quanto os outros dois clubes e ter de caminhar mais, o que vez ou outra me fazia passar por situações que reforçavam o assédio contra mulheres (e meninas).

Lembro de estar com uma roupa de treino indo para o ginásio onde treinava, numa área cheia de militares, e um homem passar ao meu lado e dizer que só não me sequestraria porque a rua era muito vigiada. Não fiz nada. Não sabia como reagir, tinha catorze anos e só pude correr até o ginásio esticando tanto quanto pudesse meus 1,04m de pernas. Depois desse dia, passei a colocar a calças para ir e voltar dos treinos e por isso perdia todo dia o último ônibus que ia direto para minha casa, o que me obrigava a fazer o caminho mais longo e cansativo. Sobrevivi até meados de 2010, até ter que tomar uma decisão difícil: estudar para o Vestibulinho ou treinar. Optei pelo Vestibulinho, já que desde os doze anos estava tendo crises de ansiedade por odiar estudar na escola em que eu estava. Àquela altura, já havia me dado conta de que preferia o voleibol como hobby do que como profissão, além de 1,80m ser insuficiente para uma posição que demanda 2 m. Foi a melhor decisão que pude tomar, já que entrando em uma escola técnica pude ter um ensino minimamente de qualidade, além de não significar largar por completo o voleibol.

Nos intervalos, jogávamos alunos e professores voleibol no gramado. Entrei para a faculdade e logo troquei de universidade. Quando me firmei, pensei em fazer as seletivas para entrar no time, mas não compactuo com as posições discriminatórias da Atlética, já que um esporte que me ensinou tanto e vem transformando a vida de tantas crianças do Grajaú não deve servir para oprimir quando ele pode ser usado para libertar.

Francielle Soares é universitária e moradora do Grajaú (SP). 

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