Conheça a Copa Lily Parr de futebol feminino

Foto por Will Sandrini | Arte por PriWi
Foto por Will Sandrini | Arte por PriWi

Você, brasileira, com certeza já ouviu dizer que mora no país do futebol. E talvez more mesmo, pois em qualquer lugar que exista alguns garotos e uma bola, são grandes as chances de existir uma partida. Mas onde estão as mulheres que vivem nesse mesmo país? As mulheres estão jogando em condições menos favoráveis, com menos infraestrutura, dinheiro, apoio e visibilidade. No país que colocou no mundo a Marta, vencedora de cinco títulos de melhor jogadora do mundo, é comum a exportação de jogadoras por não termos a cultura de valorização de times e competições femininas por aqui. E se você decide praticar esse esporte “essencialmente masculino”, prepare-se para ser a resistiência e ir a luta: não é fácil.

A Trifa e o Kátia Cilene

Em determinados momentos do ano, pessoas vão acordar e colocar o uniforme do seu time para ir a um campeonato de futebol society, desses que a galera joga no final de semana. Churrasco, cerveja, música, vai todo o esperado. Mas, no caso específico de um campeonato que rolam em São Paulo, todas as participantes serão mulheres dos mais diversos tipos, cores, idades, profissões, cabelos, preferências musicais e habilidades esportivas. Vamos contar melhor essa história aqui embaixo.

Trifa. É assim que a galera que participa se refere ao evento, nascido como um jogo entre amigos do Twitter. Na primeira edição, apenas homens participaram. Na segunda, no final de 2013, algumas meninas se animaram com a possibilidade de jogar também e, com isso, decidiram criar o Troféu Kátia Cilene, com quórum suficiente para montar os primeiros quatro times.

Daí pra frente, o negócio só cresceu. A partir do segundo campeonato feminino – junto com o terceiro masculino – as meninas, lideradas por Nayara Perone, assumiram toda a responsabilidade pela organização do Troféu KC, a divisão das equipes e tudo mais que fosse necessário para os embates acontecerem.

Katia Cilene corre a passos largos

O Troféu tem esse nome por causa de uma das mais conhecidas atacantes que o futebol brasileiro já teve – e que também participava de competições de atletismo e heptatlo. Perdoem a metáfora, mas quando a gente fala do troféu, também dá para afirmar que ele corre tão bem quanto a homenageada. Na primeira edição, houve apenas 36 participantes e já na quinta, são nada mais nada menos que 100 jogadoras e uma nada humilde lista de espera com outras 45 dispostas querendo jogar.

A formação das equipes segue assim: primeiro, são selecionadas as capitãs e separadas 70% das vagas para quem já jogou e 30% para quem ainda não participou. E muitas delas começam ali a se interessar pela modalidade e não largam mais.

Vem que vem!

Uma das maiores conquistas do Troféu KC é conseguir incluir mulheres que nunca tiveram contato com o futebol – não por falta de vontade, mas por vergonha ou insegurança. As capitãs e participantes veteranas se encarregam de receber e enturmar todo mundo que entra nos times, permitindo que, no meio desse clima de competição (que é mais “festiva” do que acirrada), todo mundo possa ter contato com o esporte e se apaixonar por ele.

Algumas das participantes contam para as organizadoras que superaram problemas de saúde como síndrome do pânico e depressão com a ajuda do esporte que começaram a praticar ali. Além de bem para o corpo e para a cabeça, o campeonato dá uma bela turbinada no círculo de amizades entre as meninas, que acabam se aproximando de outras jogadoras.

Pedimos alguns depoimentos de participantes das edições passadas para dar um gostinho do que acontece nesses eventos:

“Eu jogo futebol basicamente desde que me entendo por gente. Mas a primeira vez que joguei ‘sério’ foi a partir dos 8, quando treinava campo aos finais de semana e beach soccer nos dias de semana. O campo ficou de lado, mas o beach soccer me acompanhou até os 22, quando me mudei para São Paulo. Costumo dizer que até os 22, levei o futebol ligeiramente a sério. Depois que me mudei pra cá virou só diversão mesmo. E é por isso que eu gosto tanto do Katia Cilene. Ele une a parte da competição, que é uma coisa que eu gosto e sentia falta dos tempos de beach soccer, mas ao mesmo tempo não preciso treinar, nem super exigir demais de mim (e nem tenho tempo pra isso), porque é algo levado numa boa. É mais pra divertir do que pra de fato ganhar. Mas ganhar é bom! Tão bom que sofri nas duas primeiras vezes que participei por conta dos vices. Finalmente, na terceira tentativa, a taça veio. Na última edição durei uns 5 minutinhos, foi o suficiente pra rever os amigos, tomar gin tônica dentro de um squeeze que parecia ter algum líquido desses de jogador profissional e perder uns ligamentos do tornozelo. Os ligamentos se foram, mas ficam as histórias, as tretas com os juízes (sim, sou dessas), uns gols, muita zoeira e, principalmente, amigos!” Maria, redatora

“Eu jogava futebol no colégio. Gostava bastante e queria voltar a jogar, mas sempre tive dificuldade pra encontrar um lugar que rolasse isso. Ou era um campeonato extremamente profissional ou tinha que jogar com os caras. E eu queria mesmo era jogar despretensiosamente com outras mulheres. Eis que fui chamada pra participar do Katia Cilene que era tudo que eu buscava. Futebol sem firulas com mulheres bacanas e quem sabe, até ganhar uma medalhinha? E foi assim que tudo começou. Desde então, fui capitã em 3 edições e fui campeã na edição passada. E ganhei amigas pra vida.” Ana Paula, biomédica

“Sempre gostei de VER futebol mas não tinha ideia de como JOGAR futebol poderia ser divertido. E não, eu não sei jogar futebol. Eu só botei um uniforme, entrei em campo, marquei a adversária, tentei não fazer muita bobagem, ajudei minhas companheiras de time  como podia (fiz massagem numa perna com cãibra, ajudei a acalmar a goleira na hora da decisão nos pênaltis, gritei com o juiz, abracei na comemoração) e no fim saí de lá com uma sensação de pertencimento incrível, de companheirismo, que não sei bem se já havia sentido. Na próxima edição não poderei jogar por conta de um problema no pé, mas eu vou até lá pra me sentir de novo parte de uma coisa muito bacana.” Gabriela, publicitária

Sem carrinho, sem treta

De certo é possível perceber algumas diferenças entre o futebol dos homens e o das mulheres durante o evento. “Em geral, no futebol feminino não tem a truculência que tem no masculino”, contou pra gente a Nayara, que coordena a organização do evento. “Apesar de ter muitas meninas que nunca jogaram, existem algumas mais experientes. Mas a gente sempre avisa para manter um clima mais leve, como um dia de festa.” É assim que elas garantem que todo mundo tem chance de jogar curtindo o evento sem se machucar!

Gostei, e agora?

Todo semestre são abertas as inscrições para a Copa Lily Parr* cerca de um mês antes do evento, que não tem data fixa pra acontecer. Mas é possível acompanhar todo o processo, da inscrição ao pós, no Twitter @TRIFAorg ou pelo Facebook. Para aquelas que ainda não se sentem seguras para começar a jogar, é possível participar apenas como espectadora, curtindo os jogos e um churrasquinho – tem pra vegetarianos também, yey!.

Se você não mora em São Paulo ou não tem como participar, sempre dá pra juntar umas migas e começar a se divertir. Não precisa de data pra isso, né? 🙂

* Atualização: 

Depois da publicação dessa matéria, o Trifa atualizou o nome da competição feminina e do troféu para o time vencedor para Copa Lily Parr.

Foto por Will Sandrini | Arte por PriWi.

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