100 anos com barreiras

Corrida com barreiras, Washington DC (EUA), 1920.
Corrida com barreiras, Washington DC (EUA), 1920.

É impossível dissociar a busca das mulheres por lugar nos esportes da busca da mulher por espaço na sociedade. Afinal, a história dos esportes femininos varia de acordo com os papéis que as mulheres ocupam em cada contexto, em cada época.

Apesar de praticarem uma ou outra modalidade, às mulheres sempre foi reservado o direito e o dever da feminilidade, da delicadeza e da beleza. Seus corpos, presumidamente mais frágeis, especialmente pela medicina antiga, eram usados como justificativa de que o esporte não era lugar pra mulher. A elas caberiam outras funções como cuidar da casa e criar os filhos. E isso se repetiu por séculos até chegarmos aqui.

O antes

Na Grécia antiga, surgiu o esboço do que conhecemos hoje como Jogos Olímpicos. Mas de lá veio, também, a dificuldade feminina em fazer parte do mundo esportivo. Nos jogos masculinos, era vedada a presença feminina até como espectadoras. Como atletas, as mulheres não eram aceitas por não serem aptas a guerrear – justificativa da época para a existência dos esportes -, resumindo-as quase que exclusivamente à atividades domésticas e à maternidade. A única opção disponível para as mulheres gregas era a participação em outro evento, a Heraia ou Jogos de Hera. Ali, de quatro em quatro anos, disputava-se apenas uma prova de velocidade, em diversas categorias.

O depois

Já na Idade Média, as mulheres participavam das provas com os homens, tendo espaço inclusive em jogos com bola. Nessa época, as mulheres eram presentes em praticamente todos os setores da sociedade, estudavam, trabalhavam e até tinham direito à propriedade. Eram conhecidas como agitadoras políticas e eram parte de manifestações. Para reprimir essa liberdade e essa força, no século 17, muitas teorias sobre o papel da mulher são criadas e as mulheres perdem progressivamente seus direitos, sendo sempre subjugadas ao marido ou a um parente homem. Foi nessa época que as mulheres começaram a ter suas “características naturais” mais definidas, reforçando a imagem de seres frágeis e predestinados à procriação e cuidado da família.

Desde a antiguidade, muitas tentativas foram feitas para se reestabelecer os Jogos Olímpicos. Apenas em 1896 uma edição foi de fato promovida em Atenas, começando o novo ciclo dos jogos hoje encabeçados pelo COI – Comitê Olímpico Internacional. Essa primeira edição teve a participação de catorze países e mais de duzentos atletas: nenhum deles mulher. O objetivo era que o evento seguisse os mesmos moldes dos clássicos da antiguidade. Assim, as mulheres participam apenas como espectadores de um festival de demonstração de força, virilidade, moralidade e, claro, masculinidade.

Em 1900, em Paris, a história já muda e algumas – menos de vinte! – mulheres são autorizadas a participar dos jogos, mas ainda em esportes sem contato físico e que destaquem a beleza estética, como vela, quitação e golfe. Aqui vale ressaltar que, nessa época, não existiam eletrodomésticos e ajudantes domésticas eram exclusividade das classes mais ricas. A mulher comum do início do século é responsável pelo duro trabalho de casa, como lavar a roupa da família inteira na mão. A justificativa da fragilidade é muito mais do discurso do que da prática real diária.

Só na Olimpíada de Estocolmo, mais de uma década depois de Paris, a organização resolveu incluir competições exclusivamente para mulheres, de natação. Porém, o contexto da época ainda excluía um grande grupo de mulheres: as negras. A entrada delas nos esportes se deu apenas em 1929 quando a faculdade americana para negros Tuskegee, no Alabama, começou a criar as primeiras equipes de atletismo dedicadas às corredoras.

Os desafios continuam

Mais tarde, as mulheres começaram a participar dos esportes considerados “masculinos”, que exigiam força e/ou contato físico, como o futebol e o outras vertentes do atletismo. No final da década de 60, foram criadas regras pra definir se as mulheres eram biologicamente… mulheres. Testes anti-dopping e checagens dos corpos nus por uma equipe de especialistas faziam parte das etapas que as atletas precisavam passar para serem consideradas aptas à pràtica nas categorias femininas.

Muito disso ainda reverbera nos dias atuais. É possível mencionar o caso da Edinanci Silva, judoca brasileira hermafrodita submetida a um procedimento cirúrgico e que, em 1996, precisou passar pelo chamado “teste de feminilidade”. Ou todas as questões levantadas à cerca do corpo de atletas como da tenista Serena Williams e da lutadora de MMA Ronda Rousey, por exemplo, que são mais musculosas e frequentemente têm seus corpos criticados e questionados.

Nem a mais, nem a menos: a impressão que dá é que precisamos manter essa ideia de que existe uma mulher intermediária, que não invade o terreno da masculinidade e, ao mesmo tempo, não negligencia a feminilidade considerada inerente às mulheres. Praticar esportes, ainda hoje, é um ato político de posicionar uma mulher como indivíduo, que toma suas próprias decisões e pode seguir seus próprios objetivos.

 

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